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Leitores

1- Dar a Vida ao texto:

Como se anunciou na última edição de VTB, o tema a abordar neste número é: o Leitor dá vida ao texto. Este texto é a Palavra de Deus, escrita ao longo de muitos séculos e que está contida na Bíblia, que é constituída por 73 livros: 46 escritos antes de Cristo, o Antigo Testamento e 27 do Novo Testamento, escritos depois de Cristo. De entre estes, destacam-se os 4 Evangelhos: S. Mateus, S. Marcos e S. Lucas e S. João.

Grande parte dos livros da Bíblia é lida nas assembleias eucarísticas, semanais e dominicais. A primeira função do leitor, é, pode dizer-se, dar vida a esses textos, tão diferentes quanto ao conteúdo e quanto ao estilo literário, e que o leitor deve conhecer antes de ler, ou melhor proclamar, na assembleia.

Ler bem não é fácil, implica re-criar, dar vida às palavras do texto, dar voz ao autor, que é o próprio Deus, como se afirma ao terminar a leitura: Palavra do Senhor. Pode comparar-se a função do leitor à de um músico (pianista, violinista…) que, ao executar o trecho de outro compositor, não é um simples executante de notas musicais, mas imprime aos sons que se ouvem o sentido, a vida, a expressão, o sentimento que o compositor quis dar àquela peça. Ler, mais que pronunciar palavras soltas, é tornar viva uma mensagem que é de vida.

Depende muito do leitor que os ouvintes escutem ou não a Palavra e se deixem interpelar por Deus que nos fala. Contudo, não se trata só que todos ouçam, mas que entendam o que ouvem, captando a mensagem no seu sentido profundo e lhe respondam convictamente: graças a Deus…

É um ministério difícil. Por vezes a leitura não é fácil e os ouvintes nem sempre estão motivados e preparados para entender o núcleo do texto. Se, a juntar a isto, o leitor incorre em defeitos comuns: a precipitação, a má pronúncia, o tom monótono, mau uso do microfone, a pressa…, cai-se, então, no risco de a celebração da Palavra ser pouco mais que um momento da missa, rotineira e ineficaz, sem impacto algum e sem eco na mente e no coração dos que ouvem.

Por isso se insiste na necessidade de o leitor preparar sempre o que vai ler, conhecer a passagem bíblica, o seu estilo, as frases mais importantes, as expressões mais difíceis. Não bastam cinco minutos antes, mas, se possível, ter o texto em casa. Aliás com os meios de comunicação que temos ao alcance não será tão difícil assim.

Uma sugestão, que nos parece viável e que alguns leitores já fazem: ler, antes, em voz alta diante de alguém e perguntar se entendeu ou não. Pode ajudar!

2- O primeiro ouvinte da Palavra:

Escrevíamos, no último mês, que uma das funções essenciais, entre outras, do Leitor é dar vida a um texto escrito, no qual está contida a Palavra de Deus. Isto requer uma preparação a vários níveis: técnico, linguístico…Tudo o que dissemos, contudo, assenta num pressuposto de índole espiritual: o leitor é o primeiro ouvinte.

O Leitor que proclama a Palavra na comunidade não exerce uma função como um carteiro que se limita a transmitir mensagens a outros, nada tendo a ver com elas. Pelo contrário, o Leitor é o primeiro destinatário da Palavra que proclama aos outros: leu-A, entendeu-A, acreditou Nela, rezou-A. Só depois estará verdadeiramente apto para a dirigir à Assembleia que tem diante de si.

Ao tomar consciência da importância do ministério que exerce, o Leitor deve estar alegre por servir, imbuído de uma atitude de convicção e profundo respeito. De facto, Deus quer falar ao seu povo e o mesmo Deus escolheu este ou aquele Leitor como seu porta-voz.

Além da preparação esmerada, o Leitor coloca-se numa atitude de fé. Em várias passagens bíblicas, por exemplo: no livro do Profeta Ezequiel capítulo 3, 3; no Apocalipse, capítulo 10, 9, numa linguagem metafórica, mas rica de sentido, Deus mandava ao profeta, o que comunicava a Palavra, que a comesse, isto é, que fizesse sua a mensagem, antes de a comunicar aos outros.

Ler na Assembleia é um importantíssimo acto litúrgico a executar com amor e espírito de serviço porque só assim a Palavra se torna viva e actual. Aqui reside a honra de Leitor, como também a sua grande responsabilidade. Se a sua voz não ressoa bem, ou não está possuído e convicto da Palavra que lê, a mensagem não passa.

Como se reza na oração de bênção dos leitores: «quando proclamais a Palavra sede, vós mesmos, dóceis ouvintes dela, conservando-a nos vossos corações e levando-a à prática, guiados pelo Espírito Santo».

O Leitor é, portanto, o primeiro ouvinte e vivente da Palavra, e só nesta convicção poderá proclamá-la como deve.

3- Mediador e não Protagonista:

Se normalmente cuidamos a maneira de transmitir as nossas palavras e mensagens humanas, com mais afinco devemos aperfeiçoar a maneira de comunicar aos outros a Palavra de Deus, enunciada nas leituras da Eucaristia.

O leitor, mais que “ler” pura e simplesmente, tem como missão “proclamar”, com o máximo de expressividade, a Palavra. Proclamar é pronunciar, promulgar diante de uma assembleia que escuta. Não é uma simples leitura pessoal, busca de informação ou explicação, mas um ministério (serviço) à assembleia celebrante.

O simples facto de ler em público para uma comunidade celebrante é, por si mesmo, um acto de culto, um serviço litúrgico, realizado com fé, por quem tem fé. Assim, uma das condições requeridas a um bom leitor é que tenha a convicção de que, no seu desempenho, ele é simplesmente – e nada mais! – um mediador entre Deus, que por ele dirige a sua Palavra, e a comunidade cristã, que a escuta e faz sua.

A palavra que o leitor transmite aos irmãos não é palavra sua, nem sequer da Igreja, mas de Deus. Ele não lê em função de si, só para si, mas executa, da parte de Deus e enviado por Ele, um serviço à comunidade. Por sua vez, Deus, comunica-se, agora, não através de revelações e de anjos, mas pelo ministério concreto de pessoas concretas: os leitores. Por meio delas a palavra faz-se realidade viva e a mensagem encarna.

O que está escrito nos livros, ainda que sejam sagrados, como é o caso das leituras bíblicas, é “letra impressa” que terá vida através da voz do que lê, da sua atitude comunicativa. Só assim o que está escrito se converte em acontecimento vivo, em Palavra de Salvação.

O leitor é como que o último elo de uma comprida cadeia de transmissão. Os profetas, os apóstolos falaram há séculos, as suas palavras foram escritas nos livros bíblicos, em seguida traduzidas, depois preparadas para as celebrações e agora é um leitor concreto quem as proclama numa determinada comunidade.

Contudo, por mais belos que sejam os escritos de Isaías, de S. Paulo, de S. João… se o leitor não os comunica com expressão, se o microfone não funciona, se há ruídos, será difícil estabelecer um diálogo vivente entre Deus e a assembleia.

Deus, normalmente, não actua nem se comunica por meio de milagres, mas serve-se da mediação humana, neste caso, de um leitor. É neste sentido que reafirmamos o que dá título a esta crónica: o leitor é Mediador e não Protagonista.

4 – Alguns cuidados:

Como se depreende de tudo o que aqui temos escrito, desempenhar bem, e de forma consciente, o ministério de leitor é exigente, não é tarefa fácil. Muito caminho se percorreu, estamos certos, mas há pormenores, aparentemente insignificantes, que podem contribuir para um melhor ou pior desempenho. Assim, deixamos breves notas sobre alguns cuidados a ter para uma melhor proclamação da Palavra

No início da leitura, o leitor não tem que dizer: primeira leitura ou segunda leitura ou, quando é lido: salmo responsorial, como o sacerdote não diz, por exemplo: homilia. O leitor enuncia com clareza o nome do livro bíblico de onde é tirada a leitura: «Leitura da Profecia da Isaías»; «Leitura dos Actos dos Apóstolos»; «Leitura da Epístola de S. Paulo aos Coríntios»…e, após breve pausa, lê.

Olhar ou não a assembleia quando se lê? Deve haver o equilíbrio entre o olhar a assembleia para quem se lê (sobretudo no enunciar da leitura e no final) e olhar o texto, partindo do princípio de que o leitor é servidor de uma Palavra que não é sua, mas de Deus, e servidor da assembleia a quem dirige a Palavra. Por isso: projecte mais a voz que o olhar, cuidando, porém, uma e outra coisa.

Ler devagar é um dos requisitos fundamentais para uma boa proclamação o que, infelizmente, nem sempre acontece. A precipitação na aproximação do ambão e a pressa com que se lê são, em nosso entender, dos defeitos mais comuns dos leitores e que é preciso evitar, para que a Palavra seja bem pronunciada, captada e entendida.

O defeito oposto à pressa é o soletrar a leitura. Não é necessário ressaltar cada sílaba com igual intensidade. Além de tornar a audição maçadora, é um impedimento à compreensão do texto. É fundamental, por isso, a leitura prévia.

Vocalizar bem é outro elemento importante. Para isso, nada de pressas, não “comer” sílabas, efectuando uma boa dicção e articulação, sem omitir nem acrescentar nada às palavras ou às frases, evitando o perigo de alterar o sentido do texto.

O silêncio é outro factor determinante para uma boa leitura. Entre o título e a leitura deve haver um breve silêncio, bem como entre o fim da leitura e a aclamação: «Palavra do Senhor». Além disso, as frases e orações do texto são ritmadas por pontuação (vírgulas, pontos finais…) e os diversos tipos de pontuação requerem diversos tipos de silêncio: mais curtos ou mais breves.

A pontuação é um dos mais importantes componentes na proclamação do texto, por isso dedicar-lhe-emos o próximo número.

5 – Conselhos para antes da leitura:

O serviço do leitor não se cinge nem se esgota, como já afirmámos diversas vezes, ao estrito acto de ler, de proclamar um texto sagrado na celebração. Há um antes e um depois da leitura. Deixamos alguns conselhos pertinentes a ter em conta antes da leitura.

O serviço de leitor é eminentemente verbal. Porém, comporta igualmente algumas componentes de linguagem não verbal: gestos, posturas, para uma boa proclamação.

– O acesso ao ambão. É um gesto que deve efectuar-se de forma digna, serena, sem ruídos, esperando que o sacerdote, o salmista, o outro leitor terminem a sua função.

– A postura corporal diante da assembleia. A pessoa é por si um sinal, por isso evite-se colocar as mãos nos bolsos, os braços cruzados ou atrás das costas, a rigidez de face, o riso artificial, a teatralização. Nem excessiva timidez, nem superficialidade gestual ou de olhar. A assembleia ouve, mas também vê, isto é: também “se ouve com os olhos”.

– O leitor vestido com naturalidade. O leitor não usa, habitualmente, vestes especiais. Este, homem ou mulher, jovem ou adulto, usa o vestuário normal, sem publicidades, palavras, decorações ou formas que despertem a atenção da assembleia. Tenha-se, além disso, o bom senso para impedir qualquer reparo em ousadias desnecessárias.

– O lugar e o livro de onde se lê. É importante que o leitor se coloque visivelmente no ambão, o lugar da proclamação da Palavra, e que se veja que está a ler pelo Livro da Palavra de Deus e não por uma folha qualquer ou fotocópia. O leitor deve colocá-lo à sua medida, se necessário, pegar nele com naturalidade.

– Ajustar o microfone e a luz. Uma das deficiências mais notórias é o “quase medo” de tocar no microfone. Mas é essencial que, antes de ler, se verifique se está ou não ligado e se ajuste, como norma, a um palmo em relação à boca. O mesmo se diga se há alguma iluminação no ambão. O leitor deve colocar-se de modo a ver bem o livro e a fazer-se ouvir.

– Esperar o silêncio da assembleia. Antes de começar a ler, o leitor deve esperar que a assembleia esteja sentada, atenta, em posição de escuta. Se persiste algum ruído: pessoas a sentar-se ou à procura de lugar, movimentações… o leitor deve esperar. Sem silêncio, de nada vale começar.