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A figura tutelar da cidade a construir

Caríssimos irmãos, excelentíssimos autarcas e todos vós que aqui vos encontrais na solenidade de S. Vicente diácono e mártir, padroeiro principal do Patriarcado de Lisboa; e com especial referência aos nossos diáconos, neste dia particularmente deles:
Acabámos de ouvir a Palavra de Deus, insubstituível fonte de tudo o mais que possamos legitimamente dizer. É sempre “o lugar onde nasce a fé”, como lembra a nossa Constituição Sinodal de Lisboa, em plena receção. Fixo-me desta vez no trecho da segunda leitura. Escreve São Paulo aos coríntios: «Bendito seja Deus e Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, Pai cheio de misericórdia e Deus de toda a consolação. É Ele que nos consola em todas as tribulações, para podermos consolar aqueles que sofrem qualquer tribulação, por meio da consolação que nós próprios recebemos de Deus».
Duas palavras fortes: tribulação e consolação. Tomemo-las de Paulo, para as referirmos antes de tudo a Cristo, para as referirmos a Vicente, no princípio do seculo IV, para as referirmos a Lisboa, na segunda metade do século XII, para as retomarmos agora e na cidade em que estamos.

De tribulação sabemos certamente. Nossa ou alheia, ontem, hoje ou amanhã, ninguém se livra dela. Fugir-lhe, aliás, seria fugir à própria vida, que é tão bela quanto frágil, tanto promessa como risco. Cristo sofreu-a ao ponto de a sofrer por todos. Tribulação ainda criança e fugitivo de Herodes; tribulação em adulto, não fugindo de ninguém e, por isso mesmo, suportando contradições de tanta gente, inclusive dos mais próximos; tudo concentrado por fim naquela cruz que lhe ergueram e a que não quis fugir. Exatamente para a preencher – à cruz de nós todos – com a sua presença consoladora. Por isso nos consola, no dizer de Paulo, em todas as nossas tribulações.
Creio que a experiência cristã de cada um dos que aqui estamos, como a de quantos a compartilham connosco, reside neste preciso ponto. Na certeza de que Cristo nos acompanha muito especialmente onde a nossa cruz se une com a sua, onde a tribulação que soframos se transmuda na sua consolação. É este o absoluto realismo cristão, onde fulgura a glória da cruz.

Soube-o o diácono Vicente, na tribulação que lhe coube e a que também não fugiu. A fé redobrou-lhe na sua carne as chagas de Cristo na cruz. Foi tão heroica que logo se espalhou a justa fama, prenúncio da ressurreição garantida. Fora também consolado pela experiência de que não sofria sozinho, mas com o próprio Cristo.
Mártir significa testemunha. E o martírio cristão, que há dois milénios continua e hoje em dia se sofre em tantos lugares deste mundo – o cristianismo é hoje a religião mais perseguida -, é a prova irrecusável da tribulação consolada, por experimentar e oferecer intimamente a presença de Cristo, vencedor da morte. Também por isso comemoramos a vitória de Vicente, essa mesma que a palma lhe significa.
Guardaram-lhe as relíquias como quem guarda um troféu. Depois, segundo a tradição aqui recebida, trouxeram-nas mais para Ocidente, até ao cabo que ganhou o seu nome. E aí ficaram até ao primeiro século português.
Não esperaram por Portugal para serem veneradas. Os cristãos que permaneceram na Península Ibérica durante o domínio árabe – os chamados moçárabes -, constituíam boa parte da população desses séculos. Particularmente aqui, na cidade de Lisboa e arredores. Não sabemos muito deles, pois são escassas as notícias escritas. Mas sobram comprovações arqueológicas, etnográficas e religiosas.
Quando D. Afonso Henriques e os seus aliados conquistaram a cidade, não se tratou realmente duma “reconquista cristã”, designação já de si duvidosa. A cidade árabe e moçárabe tinha igreja, tinha bispo e tinha fiéis. Mantinha certamente as memórias dos santos da antiga tradição ibérica, como os Mártires de Lisboa – que poderão estar figurados num dos capitéis do pórtico desta sé -, ou os santos Félix, Justa e Rufina. Mantinham também a devoção a São Vicente.

Precisamente este facto deve ter levado o primeiro rei português a trazer-lhe as relíquias do Algarve, ainda árabe, para Lisboa, já portuguesa. Quer isto dizer que S. Vicente foi, também ele e nessa altura, consolação na tribulação.
Tentemos compreender: Não seria fácil à população remanescente na cidade e arredores, depois de quatro século de domínio árabe, aceitar sem mais outro domínio, de gente do Norte e mesmo de fora da Península Ibérica, como era o novo bispo, o inglês D. Gilberto… A conquista da cidade fizera-se com muito sofrimento da população residente, inclusiva a moçárabe, a quem mataram o bispo. O culto de São Vicente, sendo ao mesmo tempo peninsular e católico – pois desde o século IV se universalizara na cristandade -, poderia, como de facto pôde, reunir uns e outros.
Creio que isto se traduziu espontaneamente na adoção do Santo como símbolo da cidade a refazer-se. Juntando passado e presente, aproximando quem estava e quem viera. A nau que o trouxera e os corvos que o guardavam foram justamente o seu brasão. E assim deverão continuar, sem esbatimento inexpressivo.
É certo que, pouco depois, nasceria perto daqui Santo António, que, do século XIII em diante, foi ganhando relevo na devoção lisboeta e assim se mantém, a justo título. Aliás, não esqueçamos que o futuro Santo António começou a sua formação aqui mesmo, nesta sé que já guardava as relíquias de S. Vicente; e depois no mosteiro que, fora das muralhas, lhe reteve a invocação.
Não esqueceremos, de facto, como a vossa presença aqui garante, a figura tutelar de São Vicente. Tanto mais agora, quando as atualidade lisboeta reclama uma reintegração social e intercultural de que ele pode bem ser o grande inspirador. Trabalho muito, tribulação alguma, pois sempre custa rasgar horizontes. Mas sobretudo a consolação, que nos trará da parte de Cristo, em cuja cruz cabe o mundo inteiro!

Sé de Lisboa, 22 de janeiro de 2018

+ Manuel, Cardeal-Patriarca