Select Page

1. Estimados irmãos no Episcopado e demais participantes nesta Assembleia Plenária:

Saúdo a todos com fraterna estima e corresponsabilidade no serviço que prestamos à Igreja em Portugal e em comunhão com o Sucessor de Pedro, cuja visita em maio último tanto realçou as comemorações do Centenário das Aparições de Nossa Senhora em Fátima, que culminaram com a solene canonização de Francisco Marto e Jacinta Marto.

Assim correspondeu o Papa Francisco, da melhor maneira, ao muito trabalho desenvolvido pela Diocese e o Santuário de Fátima na preparação e realização de tão grande quantidade e qualidade de momentos celebrativos. Por isso lhes fica muito grata – ao Santo Padre, à Diocese e ao Santuário – toda a Igreja em Portugal.

Habitualmente absorvidos pelo intenso trabalho que as nossas Igrejas locais nos pedem, a atividade conjunta que desenvolvemos no âmbito da CEP e das suas Comissões ajuda-nos a tudo prosseguir sinodalmente, também a este nível, como o Papa Francisco tem urgido. Isto mesmo corresponde quer à realidade teológica da Igreja, como escola de Deus unitrino, quer à própria realidade do mundo, cada vez mais conexo em tudo o que o compõe, como sociedade e cultura. Assim prosseguiremos e assim aprenderemos a ser, mais e melhor certamente.

Não contamos nesta Assembleia com duas presenças que tanto nos honravam e estimulavam: D. Manuel da Silva Martins, Bispo emérito de Setúbal, e D. António Francisco dos Santos, Bispo do Porto, recentemente falecidos. De modo notável, um e outro a seu modo e a seu tempo, conduziram as respetivas Igrejas diocesanas e irradiaram evangelicamente para além delas. Por eles rezamos e damos graças a

Deus que agora os acolhe como tanto mereceram. Ambos deixam uma saudade preenchida pelo grande exemplo de amor à Igreja e de atenção a todos, especialmente aos mais carentes de reconhecimento e inclusão. A sua memória permanece viva e o seu estímulo nos levará no mesmo sentido e urgência.

Entretanto, o Papa Francisco nomeou D. José Augusto Traquina Maria, Bispo auxiliar de Lisboa, para suceder a D. Manuel Pelino Domingues como Bispo de Santarém. A D. Manuel agradecemos o muito trabalho aí desenvolvido, continuando a contar com a sua colaboração na CEP, especialmente nas áreas pastorais a que mais se tem dedicado, com muito proveito nosso. A D. José Augusto desejamos as maiores felicidades no seu novo trabalho, na continuação dum percurso sempre marcado pela generosidade e o acerto pastoral.

Serenamente esperamos as nomeações episcopais que o Papa Francisco irá fazendo a seu tempo para outras Dioceses, por motivos de idade ou de saúde dos seus atuais prelados. Tudo envolvemos em oração, como o Senhor Jesus envolveu a escolha dos Apóstolos e estes mesmos fizeram no preenchimento do seu colégio (cf. Lc 6, 12-15 e Act 1, 24-26). As pessoas sucedem-se, mas o serviço é sempre o mesmo, como o Espírito que o impele para congregar o Povo de Deus no louvor divino e no serviço evangélico do mundo.

 

2. Serviço do “mundo”, que hoje significa tomá-lo realmente como um todo. Um todo em que humanidade e natureza se entendam globalmente, de modo muito mais integrado. Dadas as graves e gravosas circunstâncias que afetaram e afetam o nosso país, entre os incêndios e a seca, com tantas perdas de vidas e danos materiais de toda a ordem, temos de rever profundamente a nossa relação com o meio ambiente, no sentido daquela “ecologia integral” a que o Papa Francisco dedicou a encíclica Laudato si’, de imprescindível receção teórica e prática.

É tempo de nos sentirmos parte consciente e responsável duma criação que há de ser tomada como um todo e assim mesmo respeitada nos seus ritmos e sinais. Escreve o Papa, num passo fundamental da sua encíclica: «A falta de preocupação por medir os danos à natureza e o impacto ambiental das decisões é apenas o reflexo evidente do desinteresse em reconhecer a mensagem que a natureza traz inscrita nas suas próprias estruturas. Quando, na própria realidade, não se reconhece a importância de um pobre, de um embrião humano, de uma pessoa com deficiência – só para dar alguns exemplos -, dificilmente se saberá escutar os gritos da própria natureza. Tudo está interligado. Se o ser humano se declara autónomo da realidade e se constitui dominador absoluto, desmorona-se a própria base da sua existência» (Laudato si’, nº 117).

Respeitar a natureza, proteger a vida e atender aos pobres são atitudes conexas «duma ecologia integral, que inclua claramente as dimensões humanas e sociais» (ibidem, nº 137). Detenho-me brevemente nestes três pontos, tanto pela particular atualidade como pela reflexão que a nossa Conferência Episcopal lhes tem dedicado, aliás em concordância com idênticas expressões da sociedade civil.

No que à natureza física respeita, os recentes incêndios reforçaram tragicamente o que dissemos na Nota Pastoral de 27 de abril passado, dando-lhe ainda mais urgência: «É fundamental que todos olhemos a natureza não como uma simples fonte de utilidade e rendimento económico e por isso facilmente sujeita a explorações de tal modo desordenadas que a destroem totalmente. Até mesmo por não nos ser possível viver sem ela, há que respeitá-la e valorizá-la, na sua bondade, harmonia e equilíbrio, como um dom que recebemos e um legado que devemos esforçar-nos por transmitir às gerações futuras» (CEP, Nota Pastoral Cuidar da casa comum – prevenir e evitar os incêndios, nº 5).

Os católicos, como a sociedade em geral, acompanharam quanto se passou, com solidariedade e oração. Muitos sofreram diretamente as consequências, em vidas e haveres. Com os seus pastores e organizações (paróquias, Cáritas, Misericórdias e outras) compartilharam penas e trabalhos e continuam a fazê-lo, para a reconstrução de vidas, habitações e o mais que importa. Certamente incluirão ainda mais, quer na catequese interna quer na cultura envolvente, as indicações ecológicas da encíclica Laudato si’.

Quanto à proteção da vida humana, no seu arco inteiro da conceção à morte natural, o caminho é claro e obrigatório. Saudando quantos dão o seu melhor para defender e promover a vida em todas as suas fases, quer em instituições públicas quer em iniciativas particulares, por motivações confessionais e humanitárias, relembro, por especial oportunidade, o que escrevemos na Nota Pastoral sobre a eutanásia, de 8 de março de 2016: «O valor intrínseco da vida humana em todas as suas fases e em todas as suas situações está profundamente enraizado na nossa cultura e tem, inegavelmente, a marca judaico-cristã. Mas não é difícil encontrar na razão universal uma sólida base para este princípio. A Constituição da República Portuguesa reconhece-o ao afirmar categoricamente que “a vida humana é inviolável” (artigo 24º, nº 1)» (CEP, Nota Pastoral Eutanásia: o que está em jogo? Contributos para um diálogo sereno e humanizador, nº 4).

Esta Nota Pastoral deverá ser tomada e retomada na reflexão interna e externa das nossas comunidades. E coincide também com posições provindas da sociedade civil, de que destaco, pela especial representatividade, a de cinco sucessivos Bastonários da Ordem dos Médicos: «A Eutanásia, o Suicídio assistido e a Distanásia representam uma violação grave e inaceitável da Ética Médica (repetidamente condenados pela Associação Médica Mundial). O Médico que as pratique nega o essencial da sua profissão, tornando-se causa da maior insegurança nos doentes e gerador de mortes evitáveis» (Eutanásia, Suicídio assistido e Distanásia, setembro 2016, nº 4).

Quanto à atenção aos pobres, acolhamos ativamente, nas nossas comunidades e na sociedade em geral, a Mensagem que o Papa Francisco nos dirige para o próximo Domingo 19 do corrente mês de novembro, I Dia Mundial dos Pobres. Dia que passa a integrar a série de “Dias Mundiais” de iniciativa pontifícia, para todos os católicos e todas as pessoas de boa vontade. Especialmente quando escreve: «Este Dia pretende estimular, em primeiro lugar, os crentes, para que reajam à cultura do descarte e do desperdício, assumindo a cultura do encontro. Ao mesmo tempo, o convite é dirigido a todos, independentemente da sua pertença religiosa, para que se abram à partilha com os pobres em todas as formas de solidariedade, como sinal concreto de fraternidade. Deus criou o céu e a terra para todos; foram os homens que, infelizmente, ergueram fronteiras, muros e recintos, triando o dom originário destinado à humanidade sem qualquer exclusão» (Mensagem para o I Dia Mundial dos Pobres, Não amemos com palavras, mas com obras, nº 6).

Qualquer destes pontos, sobre a natureza e a vida, sobre os pobres e o seu lugar prioritário no Evangelho e na evangelização, deve ser parte integrante e reforçada nas nossas catequeses, doutrinais e práticas. O mundo de hoje, físico, humano ou social, requer-nos na frente ativa e criativa duma ecologia verdadeiramente integral.

 

3. Esta Assembleia decorre durante a Semana dos Seminários, expressão do interesse, oração e ajuda com que o Povo de Deus acompanha a formação dos seus futuros pastores. Por boa coincidência, dedicará algum tempo à nova Ratio Fundamentalis Instituitionis Sacerdotalis, publicada pela Congregação para o Clero a 8 de dezembro do ano passado.

Com este documento se conformarão as regulamentações mais localizadas, a cargo das Conferências Episcopais. Lemos no documento, num trecho que cito um pouco mais por enunciar quase completamente a temática tratada: «A ideia de fundo é que os Seminários possam formar discípulos missionários “enamorados do Mestre”, pastores “com o cheiro das ovelhas” que vivam no meio delas para servi-las e conduzilas à misericórdia de Deus. Por isso, é necessário que cada sacerdote se sinta sempre um “discípulo a caminho”, carente constantemente de uma formação integral, compreendida como contínua configuração a Cristo. Dentro desta única formação, integral e progressiva, distinguem-se duas fases: inicial e permanente. Por sua vez, nesta Ratio Fundamentalis, a formação inicial está articulada em quatro etapas: propedêutica, dos estudos filosóficos ou “do discipulado”, dos estudos teológicos ou “de configuração”, e pastoral ou de síntese vocacional» (Introdução, nº 3).

 

4. Sublinho três pontos mais na Agenda da Assembleia, entre outros também importantes. Acolheremos, com muita gratidão aos que nela tanto trabalharam, a edição dos Quatro Evangelhos e do Saltério, novamente traduzidos. Agradecemos ao Senhor D. Anacleto Oliveira, Presidente da Comissão Coordenadora, e a todos os tradutores e colaboradores, este notável contributo à vida da Igreja em Portugal e na lusofonia. Trabalho conjunto de reconhecidos biblistas, como muito ganha em ser, é verdadeiramente uma obra de Igreja para a Igreja e os leitores em geral, que terá o seu lugar por excelência na proclamação litúrgica da Palavra de Deus.

Olharemos com atenção para as orientações relativas à preparação remota e próxima do matrimónio, à luz da exortação apostólica pós-sinodal Amoris Laetitia. E seguiremos a preparação da próxima assembleia do Sínodo dos Bispos sobre “os jovens, a fé e o discernimento vocacional”. Assim nos situamos na sinodalidade mais vasta que, em toda a Igreja, leva por diante a proposta evangélica na sociocultura atual. Ontem como hoje, nomeadamente quanto à família e à juventude, as propostas evangélicas mantêm plena verdade e requerem igual decisão.

 

5. Esta Assembleia terminará em Lisboa, com a inauguração da nova Sede da Conferência Episcopal Portuguesa. Na Quinta do Bom Pastor (Buraca) e vizinha das atuais instalações da Emissora Católica Portuguesa, potenciará em melhores condições o respetivo trabalho e missão. Agradeço muito ao Secretariado da CEP o esforço desenvolvido para que tudo se tenha conseguido tão bem e a tempo.

Fátima, 13 de novembro de 2017

+ Manuel Clemente