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O tamanho da cruz

Irmãos caríssimos, saúdo-vos a todos com as palavras nunca gastas de São Paulo aos Gálatas: «Graça e paz a vós, da parte de Deus nosso Pai e do Senhor Jesus Cristo, que a si mesmo se entregou pelos nossos pecados, para nos libertar deste mundo mau, segundo a glória de Deus nosso Pai. A Ele a glória pelos séculos dos séculos! Ámen» (Gl 1, 3-5).
Estas palavras poderão deixar-nos um pouco perplexos, e é bom que assim seja. Dizem-nos que graça e paz verdadeiras provêm de Deus; que nos chegam por Jesus Cristo que morreu por nós, para disso mesmo vivermos, da sua vida oferecida; e que assim nos libertou “deste mundo mau” – não porque Deus o fizesse mau, mas porque o estragamos tanto, quando o retemos em nós e nos retemos nele.
Agarrar a vida, como se cada dia e momento se gastassem em si mesmos; ou consumir e gozar, como se nada mais houvesse ou merecesse… Tudo nos pode entreter connosco e distrair dos outros – e do Outro absoluto em quem poderemos finalmente respirar. «O mundo sufoca, porque não adora!», bradava São Pedro Julião.
Criámos assim uma enorme distância da terra ao céu e uma rotura imensa entre criação e Criador, que só Deus pôde ultrapassar em Cristo, quando a própria morte foi preenchida pela sua vida, retribuída ao Pai em ação de graças e compartilhada com todos em caridade e resgate. Morrer para si e renascer para Deus e para todos, no Espírito de Cristo, é a absoluta novidade cristã, batismal e completa. Menos do que isto, ainda não é coisa nenhuma, desilusão apenas e expetativa frustrada.

Estamos em assembleia cristã, no Batismo que nos une e na Ordenação de alguns, como presbíteros e diáconos. Para todos, para cada um, trata-se de seguir a Cristo, no modo particular que esse seguimento implique. Mas, para cristãos leigos, cristãos especialmente consagrados, ou ministros ordenados, o essencial é idêntico. E traduz-se no que acabámos de ouvir: «Quem não toma a sua cruz para me seguir, não é digno de mim. Quem encontrar a sua vida há de perdê-la; e quem perder a sua vida por minha causa há de encontrá-la».
Este trecho de São Mateus é dirigido «aos Apóstolos». Outros trechos evangélicos ajudam-nos a compreendê-lo com maior latitude ainda. Assim em São Lucas: «Depois, dirigindo-se a todos, disse: “Se alguém quer vir após mim, tome a sua cruz, dia após dia, e siga-me. Pois quem quiser salvar a sua vida há de perdê-la; mas quem perder a sua vida por minha causa há de salvá-la. Que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, perdendo-se ou condenando-se a si mesmo?”» (Lc 9, 23-25). Seguir o Senhor é vocação de «todos» os batizados, tomando a cruz de cada dia, isto é, fazendo de cada momento uma entrega a Deus e aos outros; e dedicando-se aos outros a partir de Deus, como o fez Jesus e o seu Espírito em nós o perfará agora. Só assim “ganharemos o mundo inteiro”, quando tudo for caridade, essa mesma que nunca acaba em profundidade e extensão. A eternidade é do tamanho da entrega. Do tamanho da cruz.
Di-lo também Cristo, noutro trecho, comparando-nos ao grão que só frutifica na medida em que se desfaz: «Se o grão de trigo, lançado à terra, não morrer, fica ele só; mas, se morrer, dá muito fruto. Quem se ama a si mesmo, perde-se; quem se despreza a si mesmo, neste mundo, assegura para si a vida eterna.» (Jo 12, 24-25).

Jovens ou idosos, homens ou mulheres, casados, solteiros ou celibatários, para todos nós esta é a irredutível condição batismal. Morrer com Cristo para todo e qualquer tipo de egoísmo e renascer com Cristo para toda e qualquer forma de caridade, espontânea ou urgente, em cada estado e condição de vida e chamamento divino. Como também há pouco ouvimos São Paulo: «Todos nós que fomos batizados em Jesus Cristo fomos batizados na sua morte. Fomos sepultados com Ele pelo Batismo na sua morte, para que, assim como Cristo ressuscitou dos mortos, pela glória do Pai, também nós vivamos uma vida nova.»
Tudo isto poderá parecer “doutrina” a mais, se nós tivermos vida a menos… Porque os evangelistas e São Paulo transmitiam-nos o que tinham aprendido com Cristo e o sentido absoluto da sua cruz, que lhes relativizara tudo o mais. E assim propunham que vivêssemos, nada menos do que isso. Como o Apóstolo escreveu aos coríntios: «A linguagem da cruz é certamente loucura para os que se perdem mas, para os que se salvam, para nós, é força de Deus […]. Julguei não dever saber outra coisa entre vós a não ser Jesus Cristo, e este crucificado.» (1 Co 1,18; 2,2). Assim escrevia, correspondendo com a doutrina à existência que já levava, em ação de graças pelo que lhe tinha sido plenamente revelado com a vida, morte e ressurreição de Cristo.
Plenamente revelado e oferecido, mas já de algum modo assinalado em toda a experiência humana e humanizadora que aconteça sobre a terra. Na verdade, a nova criação resgata e culmina a criação primeira, que Deus sempre nos oferece, como princípio e possibilidade de ser e de crescer. Também por isso, a primeira leitura desta Missa nos contava como a hospitalidade prestada por uma boa mulher e o seu marido ao profeta Eliseu, tantos séculos antes de Jesus vir ao mundo, acabou por lhes proporcionar muito mais. E nos proporcionará agora, se soubermos acolher quem Deus nos envia, disse-o também Jesus no Evangelho que escutámos.

Caríssimos ordinandos de presbítero e diácono, esta verdade cristã e básica é hoje muito especialmente para cada um de vós. E porque a cruz tem dois segmentos, vertical e horizontal, permiti que vos configure sacramentalmente a cada um deles.
Na nossa Igreja latina, o presbítero celibatário apresenta-se numa nova verticalidade, essa mesma que sempre aponta para o alto, abrindo todas as ocasiões da vida àquele maior cume em que realmente “só Deus basta”. Tudo o que é bom na vida temporal, do nascer ao crescer e amadurecer, trabalhar e constituir família, conviver e criar – tudo é bom como começo e exercício, mas jamais tomado como fim em si mesmo.
Por isso Jesus Cristo, que não constituiu família para poder ser direto e constante familiar de todos, abriu um céu de esperança e eternidade em tantas situações de tristeza ou limite. Especialmente nessas, diante de enfermos e moribundos, diante de todo o tipo de pobrezas e dores. Assinalava já, como assinalareis também vós, caríssimos ordinandos de presbítero, aquele mundo transcendido em que todos seremos, no seu próprio dizer, «como anjos no Céu» (Mt 22, 30). Sem qualquer menosprezo pelo matrimónio, que em Cristo é também sacramento, mas indicando sempre a realização final de tudo e de todos naquele louvor divino em que o coração se espraia. Repetindo sempre, com Santo Agostinho: «Senhor, criastes-nos para Vós e o nosso coração está inquieto enquanto não descansa em Vós!» Assim se considerará “angélica” a vossa vida e especificamente “sacerdotal” o vosso exercício.
O sacerdócio, pelo que assinala e eleva, verticaliza as vidas – e para isso realmente serve. Onde, de verdade, chega um sacerdote, as palavras ganham o sentido último, os gestos assinalam atitudes definitivas, a esperança reabre-se, as coisas transmudam-se em sacramentos e tudo culmina em louvor e ação de graças. Sem que isto indique qualquer espiritualismo vazio, antes caridade consistente e prática. A caridade que é, precisamente, a mais alta elevação da virtude, também na vida sacerdotal e pastoral, como em qualquer existência que se queira “cristã”.
No segmento horizontal da Cruz, caríssimos ordinandos de diácono, deixai-me divisar sacramentalmente o vosso ministério, braço estendido de Cristo a todas as necessidades humanas. Em boa hora o Concílio Vaticano II restaurou o diaconado como grau permanente da Ordem, porque a apresentação sacramental de Cristo como sacerdote e pastor, própria de bispos e presbíteros, deve ser complementada com a de Cristo servo. E, assim como o ministério sacerdotal liberta o espírito de todos para o louvor divino, também o ministério diaconal – que bispos e presbíteros também receberam – estimula a comunidade inteira para imitar a Cristo, que desse modo se apresentou: «Eu estou no meio de vós como aquele que serve.» (Lc 22, 27).
Assim vos deveis entender, como sacramento de Cristo diácono, isto é, servidor. E, sendo esta reconhecida disponibilidade para o serviço o critério mais autêntico da vossa escolha, seja esta também a alegria pascal da vossa vida, como das vossas comunidades e famílias.
– No caminho sinodal que levamos em Lisboa, demos graças a Deus pelo que sois e sereis, padres e diáconos para comunidades autênticas de louvor e serviço, de acolhimento e missão. Santa Maria vos ensinará isso mesmo e um povo inteiro vos aguarda agora!

Santa Maria de Belém, 2 de julho de 2017 

+ Manuel, Cardeal-Patriarca